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Causa mortis: trabalho. Por que as pessoas estão morrendo por um salário

24/04/2019

As pessoas estão morrendo por um salário. Essa é a conclusão do professor de comportamento organizacional da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e um dos maiores especialistas em gestão de pessoas do mundo, Jeffrey Pfeffer.

Sua estimativa é que o emprego acabe com a vida de 120 000 pessoas por ano apenas naquele país — um prejuízo de 180 bilhões de dólares, ou 8% do custo total com saúde. Para chegar a esses números, ele avaliou dados coletados por organismos públicos e privados, corrigindo fatores como idade, gênero e classe social.

O resultado da análise está no livro Dying for a Paycheck (HarperBusiness, 110 reais, sem edição no Brasil), lançado em meados de 2018. “A má notícia é que o trabalho está matando”, disse Jeffrey a VOCÊ RH. “E ninguém realmente se importa.” Esse problema não estaria restrito à nação mais poderosa do planeta. Uma consulta rápida nos dados da Previdência Social no Brasil mostra que, nos nove primeiros meses de 2018, foram concedidas pelo INSS 8 015 licenças por transtornos mentais e comportamentais adquiridos no serviço — um avanço de 12% em relação ao mesmo período de 2017.

Já o afastamento por depressão e ansiedade aumentou quase 5 pontos percentuais. Há uma década, quando começaram a ser mapeadas, as doenças mentais representavam menos de 4% dessas situações. Assim como nos Estados Unidos, a conta brasileira é alta. Em quatro anos (de 2012 a 2016), os gastos públicos ligados a transtornos psicológicos e comportamentais somaram 784,3 milhões de reais, o equivalente a 7% das despesas médicas do país. Situações relacionadas ao dia a dia do trabalho, aos baixos salários e à falta de tempo para cuidar da própria saúde seriam os principais agentes de causa mortis. Parte, claro, é consequência da sociedade moderna, que exige indivíduos conectados 24 horas por dia.

As pessoas, acredita Sigmar Malvezzi, professor de psicologia da Universidade de São Paulo, têm dificuldade de se adaptar a um ritmo tão intenso. “Os eventos acontecem numa velocidade alta e a competitividade é grande.” Essas condições roubam o ser humano dele mesmo, a fim de colocá-lo a serviço de outros.

Variados estímulos repetitivos tornariam os indivíduos reativos, sem tempo de reflexão e, no limite, autoritários. “O que se observa é que os projetos de vida são pequenos”, afirma Sigmar. “A gente vive uma situação de desumanização.” Contudo, outra parte é sequela da cultura corporativa instalada nos últimos anos. “Falamos ‘reter’, ‘pipeline’, ‘selecionar’, uma linguagem na qual as pessoas são tratadas como um recurso a explorar”, diz Marcelo Cardoso, ex-CEO do Hopi-Hari e hoje presidente da Chie, consultoria especializada em transformação organizacional. A conjuntura se agrava conforme mudam as relações trabalhistas.

Cada vez mais gente atua na chamada gig economy, fazendo bicos ou prestando serviços extras com a ajuda de aplicativos, como quem dirige pela Uber ou faz entregas pela Rappi. Isso resulta em uma quantidade maior de trabalhadores que precisam se virar por conta própria, não têm acesso a planos de saúde nem outros benefícios e sofrem de insegurança financeira.

“Os profissionais são vistos como únicos responsáveis por si mesmos, e isso intensifica a pressão”, afirma Anderson Sant’Anna, professor do mestrado profissional em Administração na Fundação Dom Cabral, onde também coordena o Observatório de Relações Indivíduo-Organizações-Sociedade. Fora ou dentro do mundo empresarial, os humanos se transformaram em meras engrenagens.

Custo de manutenção

Toda máquina, até mesmo a humana, precisa passar por uma revisão. Quando isso não acontece, entra em parafuso. Criou-se até um termo para definir quem se exaure de trabalhar: burnout. A rotina extenuan­te, o excesso de cobrança, a escassez de recursos são a combinação perfeita para a instalação de doen­ças crônicas (como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares), que representam três quartos dos gastos com saúde nos Estados Unidos. Para Jeffrey Pfeffer, esses males estão intimamente relacionados ao estilo de vida e à higiene mental dos indivíduos — duas coisas impactadas pelo trabalho.

“Se você abusa de um equipamento e faz com que o custo de manutenção seja alto, você é demitido. Mas se abusa de alguém, causando desgaste, ninguém parece prestar tanta atenção”, diz o professor, ao concluir que as empresas são o mal, e não a vítima, da famosa inflação médica.

No Brasil, segundo Alberto Ogata, conselheiro de gestão da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), essa perda poderia representar 6% da folha de pagamentos das organizações só no aumento de taxas de seguro de saúde. Além dos gastos, funcionários adoentados e estressados pioram índices que os líderes de recursos humanos adoram medir, como os de rotatividade e de produtividade. Quem tem burnout, por exemplo, “questiona todo dia a própria capacidade, e isso tem impacto direto no desempenho”, diz Brian Heap, sócio da Gallup no Brasil.

De acordo com um estudo da consultoria americana, os funcionários esgotados são 50% menos propensos a conversar com o chefe sobre suas necessidades de entrega e 63% mais propensos a faltar no trabalho por causa de doença. Ao mesmo tempo, sua probabilidade de procurar um novo emprego é três vezes maior. Resultado: gente infeliz, improdutiva e entrincheirada. Jeffrey calcula que os custos indiretos provenientes do desengajamento, da desmotivação e do presenteísmo sejam cinco vezes superiores ao montante das despesas médicas diretas.

 

Fonte: EXAME
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