Trabalho escravo é duas vezes mais lucrativo que o tráfico de drogas

12/03/2018

Nesses casos o trabalhador é o mais prejudicado, porém a credibilidade dos países no mercado mundial é afetada.

Foram quase seis anos trabalhando totalmente de graça e entregando todo o dinheiro nas mãos dos pastores patrões. “Nunca fiquei com R$ 1. Todo dia, uma perua parava na porta bem cedo, subiam umas 15 irmãs e a gente saía para vender trufas. Às 17h, a gente voltava e entregava tudo”, conta Priscila dos Santos Castelli. Hoje, ela tem 39 anos e vive em São José do Rio Preto (SP). Mas dos 23 aos 29 anos, ela trabalhou para a seita Jesus: a Verdade que Marca e, em vez de salário, recebia apenas a promessa de salvação.

Casos como o de Priscila justificam os números alarmantes divulgados em pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT): o trabalho escravo movimenta US$ 150 bilhões no mundo e é duas vezes mais lucrativo do que o tráfico de drogas, que, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), movimenta US$ 65 bilhões ao ano.

O estudo considerou o que os empregadores lucram mais ao deixarem de pagar os salários. Segundo o coordenador do Programa de Combate ao Trabalho Escravo da OIT, Antonio Carlos de Mello Rosa, as perdas atingem diretamente os trabalhadores, mas vão muito além. “Os prejuízos são locais, regionais e internacionais. Quando um setor no Brasil é flagrado com condições análogas à escravidão, a credibilidade é afetada, e países podem deixar de comprar daqui”, afirma.

Em outubro do ano passado, a alemã Haribo, famosa pelas balas de ursinhos de gelatina, colocou em xeque os fornecedores brasileiros de cera de carnaúba, usada para dar brilho às balas. A empresa iniciou investigação depois de um documentário na TV alemã mostrar trabalhadores do Nordeste ganhando R$ 40 por dia para cortar as folhas sob sol escaldante, em jornadas exaustivas, às vezes sem água.

“As condições da fazenda são tão ruins que a polícia brasileira costuma fazer ações para libertar os trabalhadores”, diz o documentário. A reportagem entrou em contato com a Haribo para saber o desfecho da investigação, mas a empresa não retornou até o fechamento desta edição.

Sem renda. Os prejuízos locais são ainda mais imediatos. “Quando um trabalhador deixa de ser remunerado, ele perde a capacidade de consumir, e aquele dinheiro deixa de circular na localidade, afetando a economia da região”, enfatiza Rosa.

É exatamente o que acontecia com Priscila, que morou durante um ano e dois meses em uma fazenda em São Vicente de Minas, no Sul do Estado, de propriedade da comunidade evangélica Jesus: a Verdade que Marca. Mas antes, trabalhou por mais de cinco anos vendendo produtos sem receber. “Entregava tudo nas mãos deles. Meu filho, na época com 8 anos, precisava das coisas e eu não tinha como comprar”, lembra Priscila, que deixou o local no fim de 2007.

Se pudesse reivindicar direitos trabalhistas, incluindo férias e FGTS, com base no salário mínimo atual, Priscila teria direito a cerca de R$ 100 mil em indenização pelos seis anos trabalhados de graça. Os cálculos são de auditores da Superintendência Regional do Trabalho (SRTE-MG), que fizeram uma simulação. Entretanto, o prazo para que ela reivindicasse já expirou. “A prescrição acontece em cinco anos. Depois, o trabalhador perde o direito”, explica o auditor Marcelo Campos.

Explorador gera concorrência desleal

Em 2011, a Polícia Federal e uma equipe de auditores do trabalho começaram a investigar a seita Jesus: A Verdade que Marca. Em 2015, alguns líderes foram presos, mas logo foram libertados e continuaram com o esquema. Em fevereiro deste ano, uma nova etapa dessa operação, chamada Canaã: A Colheita Final, resultou na prisão de 13 lideranças envolvidas com a exploração de fiéis, que trabalhavam de graça em estabelecimentos da igreja.

Em uma fazenda em São Vicente de Minas, a fiscalização encontrou cerca de 150 pessoas morando e trabalhando para a seita, supostamente sem salários. “É um exemplo da alta lucratividade do trabalho escravo. Só esta fazenda tem uma produção mensal com frutas estimada em R$ 100 mil. Se esses produtores não pagam os trabalhadores, isso gera uma concorrência desleal”, avalia o coordenador do projeto de combate ao trabalho escravo da Superintendência Regional do Ministério do Trabalho, Marcelo Campos.
A reportagem tentou contato pelo telefone no site da igreja, que agora se chama Jesus: Traduzindo a Verdade. Ninguém retornou.

“Realmente era uma escrava, presa pelo medo”

“A gente não podia ter contato com a família nem amizades. Quando eu olho para trás, vejo que eu era realmente escrava, presa pelo medo”, lembra Priscila Castelli. Ela deixou a seita no fim de 2007. A luta da mãe dela, Leonor Santos, 67, foi fundamental. “Fui em todos os jornais, mandei cartas para o presidente contando sobre a exploração. Até que um homem da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) me procurou e prometeu que iam libertá-la. E ela voltou mesmo, na véspera do Natal, trazendo meu neto”, lembra Leonor. Priscila precisou de dois anos de tratamento com neurologista. “Eu sentia medo e tinha uma dor de cabeça tão forte que achava que ficaria louca”, lembra.

Minientrevista
Priscila Castelli
Ex-seguidora da seita Jesus: a Verdade que Marca

Como você foi parar na igreja evangélica Jesus: a Verdade que Marca?

Tinham uma pregação muito convincente. Falavam que o mundo ia acabar e só estaria a salvo quem estivesse na comunidade, e eu não queria morrer. Na época tinha uns 23 anos e fui com meu filho, que tinha 6.

Como era a fazenda onde você morou, em São Vicente de Minas, e o que você fazia lá?

Eram umas 500 pessoas morando em galpões, no curral, cheio de beliches. Não misturava homem com mulher. A gente não podia ter contato com parentes porque tudo era do diabo. Um grupo cuidava da comida, os homens plantavam, eu vendia trufas.
Você recebia salário?

Nunca recebi nem R$ 1.

E o que te prendia lá?

Era o medo de ir para o inferno. Um medo muito grande, a pregação deles era muito convincente. Eu acho que eles pegam as pessoas que estão passando por alguma situação difícil ou algum problema psicológico.

Quando olha para trás, você se considera uma trabalhadora escrava?

Hoje, quando eu olho para trás, vejo que eu era realmente escrava e que eles estavam me dominando através dos pensamentos, faziam uma verdadeira lavagem cerebral.

Como você e sua família estão atualmente?

Já faz dez anos que saí de lá. Estou muito bem, trabalhando, estou feliz. Meu filho está bem também, mas nunca mais quis seguir nenhuma religião.

 

Fonte: O tempo