Saiba como dizer “não” no trabalho sem parecer pouco engajado

26/10/2017

Com a crise, o mercado fica ainda mais competitivo e sedento por resultados. Uma das consequências é o acúmulo de funções — e a dificuldade em negar um pedido dos chefes piora o quadro, gerando sobrecarga e estresse. O medo de dizer “não” é um fenômeno mundial.

Fora do Brasil, a psicóloga social americana Harriet Braiker, Ph.D. pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles (Ucla), explorou o assunto no livro The Disease to Please (“A doença de tentar agradar”, numa tradução livre, sem edição no Brasil), que se tornou um best-seller segundo o jornal The New York Times. Para Harriet, as vítimas desse mal não são apenas pessoas que querem agradar e fazer os outros felizes.

Elas têm, na verdade, uma necessidade incontrolável de obter a aprovação. A aversão ao confronto e à raiva as leva a ser mais gentis do que o normal, como uma forma de autodefesa. Na obra, a autora desconstrói o mito de que tentar agradar sempre é um problema benigno. Em se tratando de carreira, a proatividade excessiva pode ser prejudicial (veja quadro “As nove estratégias da negativa”).

Há duas origens para o medo de dizer “não” no escopo profissional — uma está relacionada à personalidade e outra à cultura. Na dimensão pessoal, esse medo é uma consequência da síndrome do perfeccionismo e do temor de ser rejeitado quando necessitar de ajuda, traços que são construídos desde a infância. “O primeiro ‘não’ que recebemos na vida é assustador e associado a um erro cometido”, afirma Tália Jaoui, coach da Prime Talent Brasil, de São Paulo. Mas a forma como diferentes povos reagem ao “não” pode variar. “Em alguns países latinos, como o Brasil, as pessoas já esperam o ‘sim’ ao fazer uma pergunta, como se dizer não fosse uma heresia. Na Europa e nos Estados Unidos o ‘não’ é usado como uma ferramenta de produtividade.”

Para algumas pessoas, a dificuldade em dizer “não” se origina da paixão pelo trabalho e da vontade de fazer cada vez mais. Dono de uma consultoria para o mercado cervejeiro, Gustavo Renha, de 32 anos, de Niterói (RJ), trabalha com o que ama em um segmento de mercado com demandas em crescimento exponencial.

Por deter um conhecimento altamente especializado, Gustavo não consegue delegar muitas tarefas e, por isso, nem sempre dá conta de todas as demandas dos clientes. “Negar é um desafio enorme, porque quero que o negócio cresça e prospere, mas eu preciso adiar alguns trabalhos para garantir que a qualidade do serviço e a reputação da empresa se mantenham intactas”, diz o consultor, que está com a agenda lotada para até depois do Carnaval de 2018.

Do ponto de vista corporativo, o medo de recusar algo pode ser reflexo de um modelo de gestão que busca resultados a qualquer custo. “As empresas tendem a sobrecarregar o sujeito até que ele falhe, aproveitando-se da natural dificuldade do profissional de dizer ‘não’ e reforçando esse traço, em vez de entendê-lo e poupá-lo,” diz Anderson Sant’Anna, professor na Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais. Somos condicionados a dizer “sim” quando a cultura corporativa associa o ‘não’ a fraqueza, falta de engajamento, má vontade e incompetência. No entanto, esses mitos podem ser muito perigosos para a saúde e para a carreira.

Efeito colateral

Quando foi contratada por uma companhia do setor de licitações públicas em Recife, a estudante de administração Maria Eduarda de Carvalho, de 25 anos, que hoje é trainee na área administrativa da Moura Dubeux Engenharia, trabalhava 12 horas por dia.

Em apenas quatro meses de empresa, ela já havia acumulado as funções de três pessoas e passava muito tempo resolvendo emergências e atendendo a pedidos que iam além do contrato. Mas, quando foi pedir uma promoção que fizesse jus às suas responsabilidades, Maria Eduarda se frustrou com a falta de oportunidades e pediu demissão. “Sofri a velha história do bonzinho que ajuda todo mundo: quanto mais generoso você é, mais te exploram”, diz Maria Eduarda. “Aprendi a me respeitar e a trabalhar de forma sustentável e hoje sou reconhecida por isso.”

Casos como o dela são comuns no mundo corporativo e demonstram que o “sim” constante pode ter efeitos colaterais. Primeiro, porque a sobrecarga nos faz ir além dos nossos limites, o que cria um ambiente mais propício ao erro. “As pessoas prestam mais atenção quando falhamos do que quando acertamos”, afirma Luiz Carlos Cabrera, professor na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas de São Paulo.

Fazer mais do que se dá conta, além de provocar uma má avaliação de desempenho, é um empecilho ao desenvolvimento, já que, para aprender novas competências, é necessário tempo para estudar e maturar os conhecimentos. Consequentemente, dizer “sim” excessivamente pode impedir o crescimento na carreira. Isso sem contar os problemas psicossomáticos associados à sobrecarga, como ansiedade, desequilíbrio emocional e estresse.

 

Fonte: EXAME