Depressão no trabalho: colegas podem ser decisivos para agravar ou melhorar o quadro

27/07/2017

Maria José (nome fictício) trabalhava em um órgão público e tinha uma rotina estressante com cobrança, pressão e assédio moral. Com o passar do tempo, ela perdeu o estímulo para trabalhar. Maria estava com depressão e, em vez de ter o apoio dos colegas, recebia críticas e era discriminada. “As pessoas não compreendem a doença. Dizem que é bobagem, frescura, que só depende da pessoa. Já ouvi até que é falta de fé em Deus”, recorda. A saída para ela foi pedir demissão e procurar ajuda psiquiátrica.

Assim como Maria, muitos têm o mesmo problema, que pode ser agravado quando os colegas de trabalho não sabem como lidar. De acordo com Renan Rocha, do Conselho Regional de Psicologia da Bahia, é importante ficar atento para não reforçar a doença do colega. “Eu sei que a pessoa está com depressão e vou lá, coloco a mão no pescoço dela e digo ‘Oh fulano, como está hoje? Tá difícil?’. As portas do inferno se abrem quando se faz isso”, exemplifica Renan.

De acordo com Adailton Souza, professor de Psicologia da Unijorge, outra questão importante é que a identificação da depressão parte de um exame médico. “Um mal-estar ou a tristeza não podem ser classificados como depressão”, diz. Após o diagnóstico, classificar a doença do colega como “é psicológico”, ou “é só se esforçar que melhora” em vez de ajudar, só prejudica. “A maior ajuda é ter uma escuta empática”, aconselha.

Renan concorda que é preciso separar a percepção do diagnóstico, e acrescenta que é possível ficar atento a comportamentos. “Se percebo que o meu colega está com mais sono do que o normal, tem mais dificuldade em executar tarefas ou não tem conseguido expressar o que tem enfrentado, algo precisa ser feito”, diz. Ele sugere que o ambiente de trabalho seja levado em consideração. “Se trabalho em um ambiente tenso e estou convivendo com uma pessoa diagnosticada com um quadro depressivo, posso oferecer um suporte para que as atividades fiquem mais leves”, diz.

Preocupação mundial

No ano passado, mais de 78 mil pessoas foram afastadas do trabalho por episódios de depressão no país, com direitos que vão do auxílio-doença à aposentadoria por invalidez, de acordo com levantamento do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em 2015, foram 67 mil. Na época, a Bahia era o estado do Nordeste com maior número de concessões de auxílio-doença motivado por episódios de depressão.

A situação é preocupante em nível mundial. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2020 a depressão será a doença mais comum e incapacitante. Quando o assunto é o ambiente de trabalho, a OMS revela que ela também impacta na produtividade das empresas. Segundo estudo da organização, para cada US$ 1 investido em tratamentos para quadros de depressão e ansiedade, o retorno é de US$ 4.

O caso de Letícia Moura (nome fictício) talvez pudesse ser evitado se a empresa em que trabalhava tivesse mais cuidado com a saúde do trabalhador. Letícia era coordenadora de uma equipe e no ambiente havia motivação. A história mudou quando um novo diretor entrou. “Ele impôs regras arbitrárias, mudou pessoas de funções e deixou a equipe desmotivada”, conta.

As atitudes que tiraram a sintonia da equipe de Letícia chegaram nela com mais intensidade. “Ele me perseguiu de todas as maneiras que pôde. Me senti tão impotente para lidar com a situação que não tinha vontade de trabalhar”. Com o tempo, ansiedade, crises de choro e medo passaram a fazer parte da sua vida. “Até o dia em que simplesmente não consegui levantar da cama”, relembra. Letícia estava com depressão e os donos da empresa só se deram conta quando ela já estava fora.

Sabendo das pressões que envolvem o ambiente de trabalho, o Departamento de Promoção Social (DPS) da Polícia Militar da Bahia conta com um corpo técnico formado por assistentes sociais, psicólogos e outros profissionais de saúde que fazem ações preventivas, como práticas integrativas, ioga e terapia comunicativa. Segundo o capitão Edno Santana, coordenador de ensino e pesquisa do DPS, uma das funções do órgão é promover o “autocuidado e o autoconhecimento” dos PMS.

Para o capitão, existem protocolos que identificam quem precisa de suporte. “Como se vestem, qual a postura no dia a dia”, diz. Quando reconhecidos os indícios, os policiais são encaminhados para os profissionais. Em ambientes que não possuem o mesmo suporte, Edno aconselha que os colegas ajudem com cautela. “É preciso ter sensibilidade de olhar para o próximo, mas também cuidado porque o acompanhamento cabe a quem tem habilidade”, diz.

 

Fonte: Correio 24 horas